Medo do Brasil é uma tradição de 100 anos. Construir aqui também.

Inflação de 2.477%, golpe, confisco, 9 moedas, 2 ditaduras, 2 impeachments. E os impérios continuaram nascendo.

O mercado está preocupado, desanimado e cheio de dúvidas. Captação travada, valuations caindo, gente boa a caminho do aeroporto. Passou a eleição e a pergunta veio: o Brasil ainda faz sentido?

Sempre que leio biografia de quem construiu império a partir do Brasil, vou direto no mesmo capítulo: o momento em que a pessoa decidiu começar. E o que me chama a atenção é que raramente é um momento bom. Seja em 1943, no meio da guerra, 1971 em plena ditadura, ou 1989, com a inflação beirando 2.000% ao ano.

As pessoas abaixo não eram otimistas. Apenas entenderam cedo uma regra do jogo: aqui, quem espera o cenário melhorar para começar não começa nunca.

Olha o que esse país fez nesses 100 anos: duas ditaduras, nove moedas, confisco de poupança, inflação de 2.477%, dois impeachments. Não é um país que teve crises. É um país em que a crise é o normal e a estabilidade é o intervalo.

E mesmo assim.

Amador Aguiar, filho de lavrador, abriu o Bradesco em Marília em 1943, no meio da guerra, para bancarizar o interior que ninguém queria.

Samuel Klein saiu de um campo de concentração, chegou em 1952 vendendo roupa de cama de porta em porta e criou a Casas Bahia dando crédito para quem banco nenhum atendia.

Lemann, Telles e Sicupira montaram o Garantia em 1971, no auge da ditadura, e compraram a Brahma em 1989 com a inflação beirando 2.000% ao ano. Daí veio a maior cervejaria do mundo.

David Vélez não é brasileiro e podia ter construído em qualquer lugar. Escolheu o Brasil em 2013, na véspera da pior recessão recente, e fez o Nubank.

Quatro histórias, quatro décadas, nenhum ano bom.

O que esses quatro têm em comum não é sorte nem timing. É o contrário de timing. Nenhum deles construiu para o Brasil que gostaria de ter. Construíram para o Brasil que existia: juro alto, cliente sem crédito, regra mudando a cada governo. E justamente por isso o negócio deles funcionava quando o cenário era ruim, que é quase sempre o caso. No Brasil, resiliência não é uma virtude do founder. É uma premissa do modelo de negócio.

Minha tese não é que o Brasil vai ficar fácil. É que ele vai seguir de pé, aos trancos e barrancos, como sempre seguiu. E que quem construir com disciplina aqui, vai colher o que sempre se colheu.

Daqui a trinta anos alguém vai refazer esse gráfico. Vai ter uma linha escrita 2020 e, nela, nomes que hoje ninguém conhece. Alguns desses nomes estão na minha caixa de entrada esta semana, pedindo reunião num mercado em que ninguém quer dar reunião. Eles não me parecem menores do que os que construíram esses impérios. Me parecem apenas mais cedo.

O Brasil vai seguir quebrando toda década. E vai seguir produzindo quem não quebra. A única pergunta é de que lado dessa frase você quer estar.

VERVE CAPITAL

Marina Miranda